Acordara
mais cedo naquele dia, antes mesmo do relógio despertar. Ficara alguns minutos
deitada, olhando os números do relógio mudarem até que resolveu levantar-se.
Como de costume, foi ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes. Foi nesse
momento que ouviu a campainha da porta tocar.
Quem
seria àquela hora da manhã? Tão cedo! Caminhou até a porta e perguntou quem
era. Não houve resposta. Olhou pelo olho mágico e não enxergou ninguém. Deve
ter sido uma das crianças do apartamento vizinho, só “de farra”, pensou.
Resolveu abrir a porta e levou um susto: havia um homem caído no tapete da
entrada. Estava de terno, limpo, parecia ser pessoa de bem. Resolveu checar a
pulsação, não havia nenhuma e o corpo parecia enrijecido. Se estava assim, a
morte deveria ter ocorrido há algum tempo.
Ficou
em pânico, sem saber o que fazer. Como uma coisa dessas estava acontecendo com
ela, uma pessoa metódica e perfeccionista, que valorizava tanto a rotina? Foi a
passos bambos, cambaleando até o telefone. Discou 190. Jamais imaginou que um
dia discaria esse número. Uma voz impessoal atendeu. Sem saber como começar o
chamado, perguntou quem estava falando. Que idiota, isso agora não tem
importância! Resolveu ir direto ao assunto: “acabei de encontrar um homem morto
na porta do meu apartamento e não sei o que fazer...” O policial perguntou se
era alguma brincadeira de mau gosto, ao que ela respondeu que não era uma
pessoa desse tipo, que brinca com coisa séria. O policial pediu então a
identificação e o endereço dela, informou que estava enviando uma viatura e
desligou. Ainda com o fone na mão, deu uma olhada na direção da porta e levou
um susto: o homem estava de barriga para cima e ela tinha quase certeza de que,
quando abrira a porta, ele estava de bruços. Um arrepio percorreu a sua
espinha. O que seria aquilo tudo, meu Deus?! Sentou-se na poltrona para esperar
pela polícia sem desgrudar os olhos da porta. Estava suando frio e o coração
palpitava. Respirou fundo e tentou se acalmar, não deu certo. Olhou para o
relógio da parede: seis e vinte da manhã. Ouviu o barulho do elevador e
levantou-se. Foi até a porta, escutou alguns passos e novamente o barulho da
porta do elevador. Seria possível alguém passar pelo cadáver e entrar no
elevador sem notá-lo? Voltou a sentar-se. Mais dez minutos e novamente o
barulho do elevador e de passos, dessa vez vinham na sua direção. Um homem
uniformizado parou em frente a porta e chamou-a pelo nome: “Senhora Lúcia?”.
Ela fez um gesto afirmativo com a cabeça. Os cabelos compridos balançaram
também. Ficaram, por alguns instantes, se olhando fixamente. Ela então explicou
o que havia acontecido e pulou, de propósito, a parte sobre a posição do corpo.
O policial examinou o homem e constatou, na mão do morto, uma nota de dólar
amassada.
Era
a mesma situação do crime cometido no mês anterior e que a investigação provou
ser queima de arquivo. Retirou o telefone do bolso e passou algumas instruções
para a retirada do cadáver. Quando desligou, pulou por cima do cadáver em
direção à Lúcia. Ela já nem se lembrava mais do morto. O cheiro da loção de
barba daquele homem era inebriante, delicioso e os olhos, meu Deus!... Parecia
que ela causava a mesma boa impressão nele, que não retirava os olhos (lindos)
dela. Ofereceu a ele uma xícara de café e começaram a conversar.
O
tempo passou e eles nem perceberam. Quando o telefone dele tocou, chamando-o de
volta à delegacia, ela o acompanhou até a porta. Os dois nem se deram conta de
que o corpo já não estava mais lá, se despediram e ele foi embora, com o
telefone de Lúcia anotado em sua agenda e o coração carregado de sonhos. Para
Lúcia, um dia que parecia ter sido um verdadeiro horror, prometia coisas muito
boas...




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